Sonhos Numa Camisola

Algumas vezes, percebo como muitas situações que me remetem a um mesmo tema acontecem simultaneamente na minha vida. Esta semana, eu deveria entregar um trabalho literário relacionado à mudança de visão de mundo que sofremos a medida que crescemos. Curiosamente, domingo passado, dia 19 de julho, uma de minhas melhores amigas completou 21 anos de idade, assumindo sua maioridade universal. Neste dia, eu e duas amigas tivemos quase uma falsa epifania: estamos alcançando a maioridade universal e, assim, somos consideradas adultas no mundo inteiro. Claro que já tínhamos consciência disso; mas é um momento tão único e diferente, tão aguardado, que o encantamento de esperar por sua chegada é substituído quase sempre por um choque de realidade de que nada em você mudou por conta daquele minuto que virou a meia-noite e você ganhou mais um ano. Infelizmente, não pude estar com ela no dia. Aliás, o motivo pelo qual não pude estar com ela no dia, é o mesmo que torna tão difícil para mim definir o que seria o meu “lar”.

Rio de Janeiro. Belo Horizonte. Rio de Janeiro. Assim posso definir o traslado físico e geográfico dos lares da minha vida. Nascida no Rio, passei a adolescência em Minas e voltei para a terrinha para estudar na faculdade. Me sinto quase uma tia velha ao dizer que senti que o tempo passou muito rápido – consigo imaginar a indignação que eu sentia quando escutava esta frase há 10 anos. De fato, 10 anos parecem nem ter acontecido na minha vida – estes anos parecem-me mais um trailer de um filme, ou o videoclipe de uma música, de tão ligeiros e vorazes. Sim, sabia que o tempo passava, e, no entanto, não me via mudando; me via já mudada. E sempre foi  assim… Sabe, nunca me vi crescer, e duvido que você já tenha se visto; já me olhei no espelho crescida. Mas minha epifania sobre a passagem do tempo não aconteceu em Belo Horizonte, apesar de sua importância.

O tempo passou, e a maior prova disso foi a diferença que eu senti ao voltar para o Rio. Estranhamente, o gigante quarto em que eu semanalmente dormia na casa da minha avó, tornara-se somente um quarto. E quanto à mesa de jantar? Em 2005, era imensa, parecia que 50 pessoas poderiam tranquilamente comer sobe ela sem esbarrar os cotovelos. Depois de sete anos, tornou-se mais uma mesa, e até mesmo apertada para a aumentada família. Foi no momento em que, com 18 anos recém completados, me mudei para a casa de minha avó, que percebi esta diferença na minha percepção. A estante de livros que ocupava toda a parede continua lá, e ainda ocupa toda a parede; no entanto, tornou-se uma estante de livros e deixou de ser parecida com a biblioteca do palácio no filme “A Bela e a Fera” da Disney. Há, no entanto, um elemento na casa de minha avó, tão importante quanto a mesa de jantar. Ele, apesar de ter me fornecido uma amostra grátis do que estava por vir mais de 10 anos depois, nunca perdera seu encantamento; nunca cheguei a usar da forma convencional e ele é visto por uma visão puramente infantil.

Lembro-me muito bem desta visão encantada de criança. Todos os finais de semana, invariavelmente, eu ia dormir na casa destes meus avós. Já era quase “pré-combinado” – ela sabia que, sábado de manhã, eu ligaria e pediria para ir. Minha avó tinha uma camisola azul turquesa com girassois estampados e, por alguma razão, eu era apaixonada pela camisola e, claro, usava-a sempre que podia. Ela era arrastada pelo chão, mesmo com as alças transpassadas pelo meu pescoço. Talvez esta camisola tenha sido o primeiro sinal de que eu estava me sentindo crescer: um dia, as alças ficaram presas no meu pescoço. Porque não vesti-la do modo convencional então? Porque ainda não cabia. Aquele “espaço” já não era mais suficiente para mim. Lembro até hoje da gargalhada daquela vó, dizendo “Lu, não cabe mais em você”, e lembro da minha revolta ao ouvir isso; claro que ainda cabia, como não cabia mais? Ignorei este sinal e, um dia, quando realmente esses 10 anos passassem – nunca passariam, quase uma eternidade – eu finalmente poderia usar a camisola turquesa com girassois estampados e, quem sabe, até a ganharia de presente. Anos depois, a camisola foi doada.

A doação da camisola não me fez feliz, mas me fez ver uma cena incrível: minha avó relembrando desta história e rindo da mesma maneira que ria quando me via arrastar aquela seda pela casa. E esta história tem mais de 10 anos. A épica camisolinha é lembrada mais de uma eternidade depois, talvez seja mais imortal que os herois gregos. E a única aventura dela foi vestir uma menina de talvez 3, 4 ou 5 anos para que se sentisse fantasiada de adulto, como se sentiria uma eternidade de tempo depois. Gozado mesmo, é que a camisolinha turquesa com girassois estampados representa direitinho a passagem do tempo – talvez pequeno, mas marcante, e sempre lembrado –, como um girassol segue o diário e constante percurso do sol, mostrando as fases do dia todos os dias.

E, por favor, se você que está lendo vir esta relíquia em algum brechó, avise-me. Penso, no entanto, que ela está sendo arrastada pelo chão por alguma criança que a enxerga de seu próprio modo e que, daqui a alguns anos, não caberá mais entre os panos. Para sua pós eternidade, seria inebriante ver as flores do Sol protegendo vidas do frio da noite urbana.

Luciana Cafasso

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