Vestido rosa perdido

E então, estávamos em Cabo Frio para passar o Réveillon. Eu, minhas amigas e alguns conhecidos, fomos a um bar nos divertir. Começamos a beber, a conversar, até que, algum tempo depois, surgiu uma súbita vontade de ir ao banheiro. As mulheres se agruparam para que não fossem sozinhas. A busca por um banheiro estava quase trágica: muito aperto e muita gente. Finalmente, um banheiro vazio! “Cinco reais para usar”; obrigada, pessoal, vamos enfrentar fila.

A fila era longa, e a preguiça também. Só o que nos manteve lá foi a vontade insaciável de ir ao banheiro. Para que o tempo passasse mais rápido, fizemos alguns vídeos engraçados, trocamos algumas mensagens com amigos e olhamos o relógio. O tempo não passava; não há como enganá-lo. Conformadas, começamos a conversar e, como em fila grande há sempre uma historia interessante, nesta, não o foi diferente. Um rapaz alto, de blusa branca e cabelo por cortar chegou à fila sem pudores. Pudera! Estava procurando a menina que havia deixado na fila do banheiro: “oi, você viu uma menina de vestido rosa?”, perguntava a desconhecidos. As pessoas negavam, e ele, quase inconformado, dizia “acho que levei um perdido”.

A situação, para quem estava assistindo como espectador apenas, tornou-se engraçada. Não nos cabe aqui discutir os motivos pelos quais os homens acham graça na desgraça alheia. A situação foi divertida e despertou a fantasiosa mente dos terceiros, que cochichavam entre risos e curiosidade. Afinal, a maioria das pessoas passa por situações semelhantes, e é quase inevitável querer saber o final da história. Para nós, este final era bastante explícito: a menina de vestido rosa não quis mais ser acompanhada pelo rapaz e disse que ia ao banheiro – ganhou tempo e foi embora, deixando-o sozinho.

Algumas horas se passaram, e com elas, algumas bebidas e idas ao banheiro. A fome estava quase insuportável, o mau humor poderia surgir a qualquer momento. Fomos comer. Depois que todos pediram, a amiga vegetariana que vira o desespero anterior do menino, pediu uma porção de batatas fritas. Demorou um pouco mais e nos alongamos na lanchonete. De repente, ela olhou para frente, abriu um sorriso misto entre o riso do deboche e a surpresa admirada, e disse “o menino do perdido! E a menina do vestido rosa na frente dele!”.

Sim, aqueles dois personagens apareceram para nós repentinamente e nos mostraram, dentro do contexto, o quanto nossas fantasias são alimentadas e o quanto, apesar de todo o mau, ainda somos capazes de torcer por terceiros. Ainda que inconscientemente – ou bêbados. Eles sentaram e, como em alguns filmes de Hollywood, começaram a conversar esperando por um lanche em um lugar – pouco – romântico. Pareciam quase um cinematográfico casal sentado em bistrô de Paris; se olhavam nos olhos e pareciam curiosos para conhecer mais sobre o outro. Quem os olhasse, não diria que, algumas horas antes, a desolação percorria o moço. Para nós, viveram felizes para sempre. Afinal, quem pode discordar da eternidade da memória? Não há quem discorde. Muito menos da imaginação. Aliás, quem disse que o moço não a conhecia antes, mesmo?

(Luciana Cafasso)

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