A Sola do Tênis Branco

Sempre ouvi dizer que crianças são incríveis – que possuem uma alma limpa e que têm ideias maravilhosas. Elas vêm o mundo de outra forma, uma forma mais mágica, diferente dos adultos. “Isso é um chapéu ou um elefante que engoliu uma cobra?”, mostravam-me a figura. Era isso o que me diziam. E esses dizeres não me faziam sentido algum: “oras, se um adulto não vê da mesma forma é porque a forma dele deve estar certa”. Isso porquê, quando eu era criança, eu queria ser uma adulta. E acho que isso acontece com muitas crianças.

Uma vez, aos nove anos, pedi para a minha mãe que eu tivesse um cartão de crédito – e eu nem tinha muita consciência do que era crédito. Pior do que isso, eu nem saía sozinha, por quê eu iria querer um cartão de crédito? Para mim, fazia sentido. E minha mãe disse que eu poderia ter um quando eu tivesse dezoito anos. E minha resposta foi: “mãe, isso nunca vai acontecer, vai demorar uma eternidade”. Uma ironia? Estou com quase vinte e quatro e o tempo passou tão rápido, que isso às vezes me pega desprevenida e me assusta. Nada demais. Sustinhos rápidos. Rápidos como a passagem do tempo. Mas essa não é a história que eu vim contar, apesar de ela ilustrar muito bem o quanto meu próprio ponto de ista mudou em relação às coisas – não todas, só a algumas.

Vim contar de algo que me fez rir – e que lembrei de repente sem qualquer razão aparente. Foi no apartamentinho na rua Bambina, antes do ano de 2001, mas provavelmente já perto dele. Eu tinha no máximo seis anos. E, naquela tarde de um fim de semana qualquer, eu estava no quarto dos meus pais conversando com a minha mãe. E ela havia comprado há pouco um tênis branco. Ele era muito popular na época, e ela adorava. Sempre comprava o mesmo tênis. Era simples, branco, básico. Era bonito e charmoso. E sempre me lembrou e sempre me lembrará da minha mãe; era quase a sua marca registrada. Ela ficou bastante chateada quando interromperam as vendas dele, uns anos depois. Mas, naquele dia, ele estava tirando um novo da sacola. Ele estava muito branco, não havia sido usado ainda. Lindo. Novo. E, para mim, mais importante de tudo: a sola não estava gasta.

Esse tênis tinha uma sola de cor bege clara e cheia de sulcos, nuances. Como se fossem pequenas bolotinhas coladas muito juntinhas. E, surpreendentemente, a sola era a minha parte favorita do tênis. Nenhum outro tênis tonha a sola daquele jeito. E, naquele dia, a sola estava intacta, impecável. Me lembro de estar segurando o tênis, olhando aquela sola, sentindo até um pouco de pena que ela se desgastaria – porque, sim, eu tinha sentimentos pelas coisas como se elas tivessem vida – e, de repente, tive uma ideia. E foi uma ideia que me pareceu incrível, uma grande transgressão. Olhei para a minha mãe e perguntei:

–  Mãe, posso lamber a sola do sapato?

Ela, sem entender nada, me olhou muito curiosa e achando aquilo tudo muito estranho. Quando me perguntou o porquê de eu querer lamber a sola do tênis – para ela, não fazia sentido algum – apenas respondi com a maior naturalidade do mundo: “ela está tão limpinha!”. E foi aí que ela disse a frase que, honestamente, não me lembro se me fez desistir da ideia ou não. Mas vou assumir que não e sempre direi que essa foi a tarde em que eu lambi a sola do sapato. Ela disse “precisa mesmo disso?”. Como fui eu que fiz a pergunta inicial, vou me limitar a dizer que sim, eu precisava daquilo. É claro que era necessário. Uma sola tão peculiar! Quem saberia se eu teria aquela chance de novo? Teria de esperar outra eternidade de meses até minha mãe comprar outro tênis e adquirir uma sola daquelas novinha em folha.

– Mas ele foi usado na loja enquanto eu experimentava.

E, aí, eu pergunto: qual é a lógica disso? Imagine, experimentar um tênis que sempre comprou! Os adultos, realmente, precisam ser mais práticos.

(Luciana Cafasso)

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