Quarto de dezembro

Era um dia lindo – estava muito ensolarado. Aquela terça-feira de fim de primavera começou muito agitada; logo pela manhã, foram duas as pendências para resolver, cada uma em um lugar diferente. E tudo bem. Como eu já disse, o tal dia 04 estava tão lindo. Era tão leve, apesar de cheio, que eu passei o dia usando um vestido fresco e florido. Pode parecer nada; e era mesmo – era só um vestido. E, no entanto, era tudo – só pelo lugar para onde eu ia.

Eu coloquei o vestido azul para ir à UERJ. E, apesar de ser somente isso, um vestido colocado para ir à faculdade, era algo diferente: eu nunca havia ido de vestido para UERJ. Nunca gostei, sempre achei muito desconfortável. Uma pena; é como eu já disse: aquele dia 04 de dezembro estava diferente. E não era lindo apenas por causa do céu bem azulado, ou por causa do sol que brilhava intensamente e dava a sensação de verão, mas, porque eu via cada detalhe dele – e foram muitos. Teve um, porém, do qual me lembro muito bem: uma decepção que gerei. Sim! Imagina, um dia radiante, como isso pôde acontecer? Ainda mais por uma coisa tão pequena…

– Mentira! Você Não dança forró? Sério? Tá escorrendo uma lágrima dos meus olhos ao som de “Love by Grace” ao fundo.

Foi o que eu ouvi naquele áudio. Respirei fundo: esse senso de humor não me engana; nunca enganou. Mesmo que só pela voz. Aquele áudio foi uma das primeiras vezes que eu ouvi a voz dela, naquele sotaque musicado e diferente. E eu sabia: se o dia era lindo, era muito por conta da noite que viria. E, honestamente, era nada demais: uma expectativa boa, de me divertir tomando uma cerveja em um dos lugares que mais gosto, enquanto conversava e descobria um pouco mais – ou tudo – sobre ela. Não, tudo seria impossível, não condiz com o que ela é. Seria o contrário de alguém que é infinito. E era o que eu sabia sobre ela: praticamente nada. E esse nada era tudo o que eu tinha, e era mais do que suficiente para me fazer querer ir pessoalmente saber mais.

Cheguei em casa suada e suja depois da faculdade, e já era fim do dia; eu tinha pouco tempo para me arrumar. Nesse meio tempo, uma amiga me pediu ajuda com uma questão da licenciatura, comecei a me perder no tempo e, de fato, perdi a hora: ela saiu mais cedo do trabalho. Eu? Saindo do banho. Me arrumei o mais rapidamente que pude e não era suficiente – cada vez que eu olhava para o relógio, eu tentava ir mais rápido, e só me atrapalhava mais. e, depois de ter saído de casa olhei pra mim mesma: uma regata preta e um short estampado e larguinho que eu adorava. Gostei, foi uma boa escolha. A não ser pelo fato de eu não ter achado meu sutiã de alça preta a tempo. Ah, e pelo short: ele estava apertado. Mas, tudo bem, tudo fica bem, ela já me disse que gostou da roupa – desculpa adiantar a história. Prometo não contar essa parte mais pra frente.

Se bem me lembro, marcamos cerca de seis da tarde, e ela chegou antes no ponto de encontro. Quando cheguei para encontrá-la na estação de metrô de Botafogo, não a vi. Recebi uma mensagem que dizia “estou sentada no banco”, o que me fez descer as escadas quase correndo e esbarrando nas lentas pessoas à minha frente e, ao chegar ao banco, ela não estava ali. Por um segundo, pensei que ela poderia ter ido para o lugar errado: aquele sotaque musicado era de bem longe, vinha do Rio Grande do Norte.

Eu to no banco da praça do metrô.

Subi as escadas correndo, no mesmo esquema de quando as desci. Fui aos bancos da praça, onde idosos normalmente ficam sentados, e não a vi.

Tô em pé, do lado de uma moça, uma senhora, em frente à entrada do metrô.

Olhei para o tal lugar e, de imediato, a reconheci. E ela era tão linda! Vi o sorriso dela naquele segundo. Ela estava de óculos escuros meio alaranjado e redondo, vestia uma camisa preta – que dizia alguma coisa sobre pães – e uma calça rosa claro. Ah, e tênis preto e bolsa marrom. Ela estava distraída, e virei de costas para pensar em como eu iria chegar para falar com ela. Logo depois de eu me virar, ela veio correndo e me deu um susto – que eu fingi ser maior na hora. Imagine se, depois de não dançar forró, eu ainda não me assustasse de forma digna!

O que de verdade importa era o sorriso dela ao fazer isso; era tão grande, e seu riso, tão gostoso, que eu só queria que sentássemos logo no bar. E fomos decidir em qual lugar ficaríamos quando, de repente, ela decidiu:

– Ah, Adorei que aqui tem ipa! Eu amo ipa!

E foi assim que, naquelas horas de conversa, cada uma bebeu um litro e meio da tal amarga cerveja. Foi ali que eu tive a oportunidade de ouvir as mais engraçadas e, surpreendentemente, as pessoais também, histórias de uma potiguar que se mudou para o Rio e que seguiu para outros. Mas não só seguiu: ela se apega a cada rio em que navega; ela mergulha em cada um deles. Ela leva aquele sorriso por todas as terras em que andava, e carrega o violão pendurado nas costas. O violão não estava lá naquela noite do quarto dia de dezembro. Tudo o que me lembro é de querer ficar ali, sentada, ouvindo as histórias dela e contando as minhas. E, de frente para mim, ela disse

– Só tô achando ruim essa mesa aqui no meio deixa você longe.

– Será que se eu colocar a cadeira do lado, atrapalho a passagem?

Ela não me respondeu. Sorriu, me olhou e, quase sem quebrar esse olhar, veio e sentou “ali do lado”. Acho que, até hoje, ninguém sabe se atrapalharia a passagem. Ficou perto, me olhando, e eu apertei meus olhos num sorriso meio bobo. Eu já não queria mais ir embora. No meio de tudo, no meio de uma fala, no meio de uma história, ela chegou bem perto e me beijou. Foi rápido, foi sutil… foi doce. Se não estivéssemos tomando cerveja, eu diria que teve gosto de caju. E foi assim. Não fomos mais embora.

Anúncios

2 comentários

Deixe uma resposta para Paula Cavalcanti Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s