Café da manhã

É, é assim que começa. Pelo menos, é assim que começa às vezes: cozinhando. Lembro bem daquele dia em que estávamos na cozinha. Começando a preparar, talvez, o café da manhã. Acho que, de fundo, tocava Caetano.

A gente dançava, cantava; ria. Eu não quis acender o fogão, tinha certeza de que iria queimar o dedo com o isqueiro, como sempre, o que te fez sorrir. E foi assim, entre picados de tempero, de fogões acesos e de panelas no fogo. Foi assim que, no embalo da música, que você começou a mexer as panelas, dançando de um lado para o outro.

Eu? Fiquei olhando – não tinha qualquer outro preparo para fazer. E fui assim, te abraçando, minhas mãos se fechando na sua barriga; bem devagar, bem na música. E fomos dançar juntas. Dançar a um som que, a essa altura, eu nem ouvia mais, só ouvia o silêncio que fizemos, ouvia os beijos que envolviam seu pescoço. Ouvia sua respiração ficar alta e a minha ser sufocada. Senti sua cabeça lentamente pendendo para trás, deitando no meu ombro, enquanto minhas mãos começaram a se abrir e ir para a sua cintura. Uma lá ficou. A outra, foi passeando por você. E eu te olhava de cima, e você respirava no meu ouvido.

E, de repente, foi ficando mais forte, mais rápido. Tudo foi ficando assim. Sua respiração agora tinha um som, um som que dizia tudo sem dizer uma palavra sequer. Ele foi aumentando, minha mão foi te segurando, te apertando, te sentindo. Seu ombro começava a se mexer mais, começamos a nos grudar ainda mais, sua mão veio parar na minha cabeça e apertava e puxava meu cabelo, me puxava para mais perto, cravando meus dentes no seu pescoço. Minha mão estava em você. Inteira. E você virou, me segurou de volta, me fez te envolver, me beijou com urgência, com intensidade. Enquanto olhava nos meus olhos, me sentiu voltar ao seu pescoço, dessa vez sendo puxada de imediato pelos seus braços, com força, com impaciência, me fazendo cada vez mais em você, me vendo passear por toda você, descendo do seu pescoço e indo cada vez mais, cada vez com mais força, te mordendo, te beijando, te sentindo.

Jogada naquela parede como se estivesse numa cama, foi ali que sua perna veio parar no meu ombro e que sua antes respiração se transformou em quase gritos, em uma ofegante tentativa de gritar, enquanto me puxava cada vez mais para você e enquanto eu ia, da forma que você falasse, da forma que você mais sentisse, mas de forma que você não conseguisse ar para gritar. Sua mão arranhava os azulejos daquela cozinha, alternando com o puxar do meu cabelo cada vez mais forte, mais intenso. E sua voz saía quase desafinada naquela tentativa de gritar, sua boca abria e você já não parecia respirar, não parecia sequer conseguir ficar em pé, ia cair, íamos as duas, sem qualquer medo, sem qualquer receio ou freio. E você perdeu a voz junto à respiração, junto ao equilíbrio; só tinha calor, nosso suor, seu barulho, meu arrepio, seu fluxo, seu cheiro, seu gosto… só tinha você. E, aos poucos, um gemido bem suave, que foi virando alívio, riso, um sorriso tão seu, tão nosso.

E era só esse o som que tinha ali, naquela cozinha. Do nosso riso, naquele abraço ofegante e suado. Não tinha mais música. E foi rindo que lembramos e percebemos: a comida! Com certeza estaria queimada! Mas não; ficou no ponto certo, do jeito que a gente gosta.

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